Post do verdadeiro desassossego
O meu cinismo é do mais agressivo possível, porque junta ao cinismo, do cão, o relativismo de um espírito demasiado largo e líquido. Salva-me o humor, sempre um alerta auto-crítico, e o pragmatismo, estúpido, de um traço na folha em branco, que me obriga a uma opção. Sofro de melancolia do futuro. Para mim, a vida é como uma liana de Tarzan, serve a ambiguidade do que quero. Há um Eu perdido, sempre revoltado, que desejo bedelhar na vida possível que tenho. E do outro lado há este na árvore, irreflectido, belo, construído a partir do nada e sabendo que o nada pode facilmente confundir-se com tudo.Bartleby no Zoo
He is my delight
Devotion é um álbum que veste, das claves mais inspiradas na composição contemporânea até às notas austeras, ambientais, sublimadas pelo silêncio, a produção de Mica Levi e o saber-imperfeito na voz de Tirzah, uma vibração que é, a um tempo, exquisite e familiar, bravusca e delicada. Íntimo, sugestivo e estranho, reclama devoção. Toda a devoção necessária. É tudo pensado aleatoriamente: a canção é a seiva exploradora de um sentimento alienado de imperfeição, como wabi-sabi de composição minimalista, savour omnipresente daquele diálogo-grito [James] Blakeano, e a narrativa encontra-nos na noção de duplo impermanente, como só um belo underdog do amor consegue. Estreia fortíssima, magnética.
«Affection»No zoo
O zoo é apenas uma paisagem mental surrealizante. Que se foi construindo para, nos últimos anos, se reformular: de febre artística passou a sede. É tudo muito diferente. Febre pressupõe conhecimento e criação de valor se, nos intervalos, não se adoecer; sede exige-te abertura para receber, num jogo de cintura irónico e vívido com aquilo que sabes conhecer claramente.
e desconheço que incerteza possui
na lama de um poder caótico -
sempre caótico que teima enlear-me.
Mas eis a vida, sugerindo frases, noites de Verão, abraços vespertinos, arabescos como ombros imperfeitos onde chorar sem razão aparente. Ei-la, cantando pelo desenho do leito de um rio abundante e tímido como as raízes expostas ao Sol, cicatriz ferrada por tigres leucísticos, lua omnisciente no tratado da alma imensa, descendo como lenha ao fragor humano e inspirador.
Era uma noite vazia
eu eu eu
ninguém -
espreitando a inbeleza da mulher
da música concreta e definitiva,
Era um Sol crescendo só em mim
e não aquecia,
rosnava, julgava e enviava-me ao lugar de início. Hoje encontro-me e divido-me na tua espera. Puxo a cadeira para trás como um fantasma farpado. Sinto o coração eléctrico. Onde estou, estou de pé. Toco, limpo, resguardo e sopro o melhor para o teu lado. Se vieres.
O esperado dos objectos